Quanto vale a confiança?

 

Muita gente diz que a confiança se tornou algo raro. Mas, se a confiança resulta da prática coerente de valores e é base para a convergência de propósitos, parece algo simples, que se estabelece entre as pessoas sem fazer força. Sabemos que esse processo está meio em desuso – tanto que essa interação qualitativa no ambiente de trabalho passou a ser um tabu.

Parece que a confiança virou o target, aquilo que trará de volta a austeridade para as empresas e a felicidade para as pessoas. Uma das máximas que define esse contexto é a de que os mesmos valores que você sonha em ver praticados em seu país terão de virar hábito para todos os integrantes da equipe, sem exceção – inclusive para você mesmo. Isso quer dizer que não pode haver jeitinho, omissão, tolerância com desvios éticos e, principalmente, impunidade.

Quando as pessoas podem usar mal o exercício da liberdade e aproveitam as oportunidades para mentir, roubar ou corromper e ser corrompido? Especialmente quando imaginam que vão ficar impunes. Quando o grupo é coeso e coerente na prática de valores, vivendo um ecossistema justo e criado com boa governança e intolerância a desvios, raramente alguém derrapa em questões éticas ou em valores básicos. E, quando isso eventualmente ocorre, não há polêmica nem longos trâmites burocráticos: como todos concordam que não deve haver impunidade para ninguém, o problema é identificado e sanado rapidamente. Dificilmente volta a acontecer.

Isso me lembra de um exemplo muito marcante em uma empresa. Tínhamos, em muitas cidades, pequenos armazéns com itens de alto valor e fácil destinação em mercados secundários. Todos esses armazéns ficavam trancafiados e apenas um “ser iluminado” tinha as chaves em cada uma das unidades. Eram os guardiões dos nossos estoques. Ocorre que, para o bom andamento dos trabalhos, aquele guardião deveria ficar 100% do tempo disponível para receber e atender de imediato as emergências, que ocorriam com frequência. Mas o detentor das chaves também tinha outras atividades. E aí, quando um item era necessário, o cliente poderia ficar esperando e isso não era aceitável. Qual seria a opção? Deixar o almoxarifado aberto 24 horas por dia, sem ninguém tomando conta, e colocar uma câmera.

Feito! Na primeira semana, a câmera de um dos estoques foi roubada. Dali em diante, a cada madrugada sumiam itens de maior valor e fácil manuseio. Mesmo com todo o trabalho de cultura que havíamos feito antes, estávamos sendo roubados e, sim, era gente nossa. Pensávamos em voltar a ter a figura do guardião.

Cheguei para trabalhar numa segunda-feira e já esperava o saldo de baixas do final de semana, quando recebi um telefonema: “Você poderia dar um pulinho aqui na sala de reuniões?” Chegando lá, estavam cinco colaboradores de regiões diferentes, o líder do comitê de compliance e um de nossos gerentes. Eles me disseram: “Pegamos os bandidos que roubam nossos materiais. Desde quando levaram a câmera que instalamos, trouxemos de casa umas mais simples e escondemos nos estoques. Filmamos vários eventos para ter certeza e levamos ao time de compliance. Conduzimos o trabalho confidencialmente e, com a investigação encerrada, temos as medidas adequadas a serem implementadas”. O processo foi levado à polícia, os criminosos foram demitidos por justa causa.

Nos anos que se seguiram, todos os almoxarifados continuaram abertos, só na base da confiança, e não houve mais problemas. O próprio time agiu de acordo com seus princípios e valores e gerou bons exemplos de que qualquer um pode fomentar a confiança em seu ambiente e refletir a justiça que sonhamos viver no mundo.


Artigo publicado originalmente no aplicativo da revista Você S/A em 29/06/2018.



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